segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Acervo - Um Manancial para Pesquisa - Parte I

Artigo escrito por Marcello Duarte,  membro da diretoria AAMV, associado AFNB e assessor da Bibliátrica, empresa contratada pelo Bacen para higienização do acervo. As fotografias são de Isabel Diniz, Hugo Brandão e Rosane Ragel. A matéria "O Acervo" será publicada em quatro partes.
É interessante dar conhecimento à comunidade que muito em breve será disponibilizado para pesquisa em mídia eletrônica um dos três maiores acervos numismáticos do país.
Contra-marca de 960 réis em "Sol Argentino"
Foto: Isabel Diniz, Hugo Brandão e Rosane Rangel
            Existe atualmente em andamento contrato do Banco Central com empresa especializada para, entre outros objetos contratuais, estudar, higienizar e otimizar a preservação do acervo numismático pertencente ao Museu de Valores daquela Casa.
            Por dever de ofício, responsável pela empresa contratada para os procedimentos inerentes ao acervo metálico, pude vivenciar a oportunidade impar de manter contato com peças seculares que compõem o universo rico e diversificado daquele acervo.


A universalidade do acervo é traduzida pela ampla e heterogênea diferenciação de suas peças. Destarte, impõe-se aqui, discorrer por hora, tão somente das moedas relacionadas com a história (temporal) brasileira. E então, foi destacado propositadamente um assunto apaixonante, que são os recunhos das peças de 640 reis.
            Antes disso, todavia, é preciso mencionar, mesmo que superficialmente, alguns dos outros temas disponíveis na coleção como excelentes e interessantes argumentos para pesquisa e/ou exposições de assuntos específicos.
            Preliminarmente, cabe aqui o registro dos carimbos e contra-marcas presentes nas moedas da coleção. Existem moedas contempladas com carimbos desde o período pós-descobrimento até muito mais tarde nas peças da regência joanina, bem como naquelas dos cobres imperiais. 
            Do período regencial, há um substancial conjunto de 8 reales com carimbos de 860 reis assinando um potencial de identificação das peculiaridades pertinentes aos diferentes locais de emissão. Ainda nesse conjunto, um ou outro Sol Argentino se fez presente devidamente premiado com a contra-marca de 960 reis (figura acima).

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3 comentários:

  1. Glossário - [1]Patacão: Moeda equivalente a 3 patacas / Pataca: Moeda padrão do primeiro sistema monetário (prata), equivalente a 320 Réis. A origem do nome é controversa, sendo geralmente aceita como patard (moeda francesa), ou pataco, moeda de cobre portuguesa. Alguns autores a consideram derivada do árabe “ABUTACA”.
    Nesse idioma ela se apresenta como “PATAC”. Como “PATARD ou PATAR”, foi pequena moeda de cobre tendo curso em Flandres e na França, onde se empregou como sinônimo de “óbulo” para designar uma moeda sem valor. Alguns numismatas franceses dizem que PATAR pode ser uma corrupção de Peter, forma alemã de Pedro, porque o PATAR de Flandres tem sobre uma das faces a imagem do santo desse nome. Hoffman no seu livro das moedas reais da França até Louis XVI, descreve dois interessantes “PATARDS” de Louis XI (1461-1583). No Brasil, a palavra PATACA foi usada para caracterizar a moeda espanhola de 8 reales que a princípio valia 320 réis. Ficou depois, no sistema provincial, como denominação da peça desse valor.


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  2. A moeda de 960 réis - Conforme o Alvará de 20 de novembro de 1809, o Príncipe Regente D. João autorizou a cunhagem de moedas no valor de 960 Réis, na Bahia e no Rio de Janeiro. Posteriormente, a Provisão de 4 de abril de 1810 mandou executar na Bahia e no Rio de Janeiro o referido Alvará de 20 de novembro de 1809, cunhando-se moedas de 960 Réis. Ordenou que os pesos castelhanos que entrassem na receita fossem recunhados, refazendo-se inclusive a serrilha, de tal forma que a mesma fosse semelhante, em tudo, às da antiga moeda provincial de 640 Réis (duas patacas).

    A Coroa adquiria, ou recebia em pagamentos, os pesos castelhanos por valores que variavam entre 750 e 900 Réis, recunhando-os com o valor 960 Réis. A diferença era recolhida a título de senhoriagem destinada à Coroa, entre tantas destinações, mas também para sustentar os custos da onerosa operação. Em agosto de 1820 a Casa da Moeda da Bahia foi autorizada a receber os pesos castelhanos pelos preços correntes nas Províncias. Desconhecemos quais eram os preços praticados nesse período. Segundo Renato Berbert de Castro, tem-se notícia de que em dezembro de 1823, os 8 Reales já estavam sendo adquiridos pela Coroa, ao preço de 900 réis. Finalmente, em 1833, com o preço dos pesos hispânicos chegando a 1$200 réis, extingue-se a moeda de 960 réis, dando início ao segundo sistema monetário. Em 1834 ainda foram cunhados alguns poucos exemplares (154, no total) da moeda de 960 réis com essa data, daí a sua enorme raridade, função da sua reduzida cunhagem....continua...

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  3. O "960 réis", popularmente conhecido como Patacão [1] surgiu, inicialmente, sob a forma de contramarca, para depois adquirir a sua forma mais conhecida quando passou a ser cunhada a partir de 20 de novembro de 1809, data do Alvará em que o Príncipe Regente D. João, recém chegado de Portugal com sua corte, ordenou às Casas da Moeda do Rio de Janeiro e da Bahia, simultaneamente, e posteriormente Vila Rica que se fabricasse e cunhasse moeda provincial no valor extrínseco de 960 Réis. É conhecido um único exemplar com a data 1809, hoje pertencente ao excepcional acervo de moedas do MVBC. Cunhado na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, o “1809 R” fez parte inicialmente da coleção do numismata Alcides de Castro Santos que a adquiriu em 1936 (segundo dizem, juntamente com um pequeno lote de moedas que havia comprado) para, finalmente, enriquecer a coleção Nunes, último a possuí-la antes de ingressar no acervo do Museu de Valores do Banco Central do Brasil.

    Por possuir uma grande variedade de cunhos, bases (moedas sobre as quais foram cunhadas) e outras particularidades, essa moeda, apesar de haver circulado por 27 anos apenas (de 1808 quando foi criada até 1834, data da última cunhagem), constitue-se, por si só, numa forma de colecionismo, existindo por assim dizer, numismatas que se dedicam única e exclusivamente ao seu estudo.

    A contramarca inicial que deu origem à moeda de 960 réis, é bifacial e circular, de aproximadamente 17 mm de diâmetro, e limitada por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o escudo português encimado por Coroa Real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior onde, sob o cruzamento dos ramos, lê-se o valor 960.

    A contramarca de 960 Réis sobre pesos hispano-americanos, conhecida como “Carimbo de Minas”, foi criada com o Alvará de 1º de setembro de 1808. Tinha o caráter de moeda regional, devendo circular exclusivamente na Província de Minas Gerais. Os cunhos foram abertos no Rio de Janeiro, em outubro de 1808, sendo seguidamente enviados a cada uma das casas de fundição de Minas Gerais (Vila Rica, Sabará, Serro Frio e Rio das Mortes).

    Com base em sua instituição em 1808, na criação e remessa de cunhos em novembro do mesmo ano, e na criação da moeda de “três patacas”, conhecida popularmente como “patacão”, no ano seguinte, pode-se concluir que a aplicação da contramarca de Minas (Carimbo de Minas), limitou-se ao período de novembro de 1808 a dezembro de 1809, após o Alvará de 20 de novembro de 1809, quando D. João autorizou a cunhagem de moedas de 960 réis, nas Casas da Moeda do Rio de Janeiro e da Bahia.

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